Feminicídios fora de casa batem recorde em SP e já representam mais de 40% dos casos

  • 14/04/2026
(Foto: Reprodução)
Violência contra mulher: como pedir ajuda O estado de São Paulo bateu recorde de feminicídios fora de casa no ano passado: 109 mulheres foram assassinadas no meio da rua, em comércios, no trabalho e até mesmo dentro de hospitais. O número é equivalente a mais de 40,3% do total de casos (270). Essa proporção também é percebida no primeiro bimestre deste ano, com 24 dos 57 feminicídios cometidos em espaços públicos. O levantamento do g1 foi realizado com dados disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) dos últimos nove anos. A residência ainda é o local mais inseguro para as mulheres e concentra, em média, seis a cada dez feminicídios. Contudo, os dados indicam uma escalada da violência contra as mulheres em espaços públicos. Um dos episódios mais emblemáticos dos últimos meses foi o de Tainara Souza Santos que morreu após ser atropelada e arrastada por um ex-ficante na capital. Neste ano, Simone Pereira de Oliveira também foi morta a facadas pelo ex em Osasco e Cibelle Monteiro Alves foi morta a tiros no trabalho, uma joalheria em São Bernardo do Campo. Segundo especialistas em violência contra a mulher ouvidas pelo g1, ainda é cedo para cravar uma tendência, porém os números são um sinal de alerta e devem ser acompanhados ao longo dos próximos anos. Feminicídios fora de casa batem recorde em SP Reprodução/TV Globo O principal autor das violências contra mulheres é justamente o cônjuge, o companheiro, o namorado ou o marido (40%). Em seguida, aparecem ex-cônjuges, ex-companheiros ou ex-namorados (26,8%), aponta a pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O rompimento da relação é um dos momentos mais perigosos para a mulher. Com o fim da convivência no ambiente doméstico, o agressor passa a procurar a vítima em outros espaços ligados à sua rotina, como a escola do filho, o local de trabalho ou durante deslocamento. Fatores como o aumento da presença feminina no mercado de trabalho e na vida pública, o crescimento de crimes digitais e a atuação de grupos masculinistas podem explicar o recorde. Especialistas também apontam possível subnotificação, já que ainda há dificuldade em classificar assassinatos de mulheres fora do ambiente doméstico como feminicídio. É uma forma de dizer para nós mulheres: fiquem confinadas à esfera privada, porque a esfera pública não lhes pertence. E o feminicídio é o ápice dessa violência. Então, ele acontece quando há uma falha estrutural do Estado, muito grave, porque ele é evitável. Feminicídios em SP: onde ocorrem os crimes Arte/g1 Negação do espaço público Para a promotora de Justiça, Fabiana Dal’Mas, o feminicídio cometido em espaço público é uma forma do homem comunicar a mulher que aquele espaço não lhe pertence. É o mesmo pensamento por trás do assédio e da importunação sexual na rua e no transporte público. “É uma forma de querer confinar a mulher à esfera privada, que era onde nós estávamos antes. Não tanto tempo atrás, a gente estava confinada à esfera privada e aí a gente saiu para a esfera pública. Então, essa reação violenta também é uma forma de dar esse recado para as mulheres", afirma Dal'Mas. VÍDEO: mulher é morta com mais de 30 facadas pelo ex no interior de SP; homem é preso VÍDEO: Mulher é esfaqueada na rua e morta por ex-namorado quase um ano após acusá-lo de agressão Manifestantes protestam durante o velório do corpo de Tainara Souza Santos, que morreu em decorrência dos ferimentos sofridos após ser atropelada e arrastada por cerca de 1 km na Zona Norte de São Paulo. LECO VIANA/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO Segundo a promotora, o feminicídio em espaço público é um reflexo de um certo descontentamento dos homens em aceitar o avanço dos direitos e a emancipação feminina que é revidado com violência e misoginia — o ódio e desprezo contra as mulheres. “As mulheres começam a dizer não para esse parceiro abusivo. Ele passa a perder o controle, a perder a posse e não aceitar essa autonomia e reage violentamente. Como essa mulher já não está mais sob a esfera privada desse homem, ele vai atingi-la na rua, no trabalho”, explica Dal’Mas. Outro fator preocupante é o aumento da violência digital com vazamento de imagens íntimas, discurso de ódio, manipulação de fotos com inteligência artificial, stalking (perseguição) e ameaças. Esse tipo de crime é usado por agressores, geralmente ex-companheiros, para manter o controle e causar sofrimento psicológico à vítima. Embora esse tipo de violência geralmente faça parte do início do ciclo de violência, existe o risco de escalada e migração do ambiente online para o offline, incluindo agressões em espaços públicos e até homicídios. Professora na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e pesquisadora da Rede Feminina de Estudos de Violência, Justiça e Prisões, Betina Barros afirma que é cedo para associar o aumento de feminicídios em via pública com os movimentos masculinistas e redpill, porém os dados podem indicar que a violência contra mulher está transbordando o ambiente doméstico. "Não sei se dá para dizer que já é uma transformação, mas indícios nos levam a pensar que existe um desprezo à vida da mulher menos envergonhado. Então, violências que estão saindo do ambiente doméstico, estão sendo praticadas no ambiente público, nas ruas, em estabelecimentos, ainda que se refiram a dinâmicas domésticas, familiares, sexuais e afetivas", afirma a pesquisadora. Simone Pereira de Oliveira e Tainara Souza Santos foram vítimas de feminicídios cometidos em via pública. Montagem/g1/Reprodução/Redes sociais Possível subnotificação O conceito clássico de feminicídio, normalmente adotado pela polícia, associa esse tipo de crime ao ambiente doméstico e considera que a vítima e o agressor têm algum tipo de relação prévia, seja romântica, sexual ou afetiva. Na avaliação de Betina Barros, casos que fogem a essa lógica — como mulheres sem relação fixa com o agressor ou situações envolvendo outros contextos, como o tráfico de drogas — podem ser registrados como homicídio comum. Sancionada em 2024, a lei do chamado Pacote Antifeminicídio, que tornou o feminicídio um crime autônomo no Código Penal, pode ter contribuído para ampliar a classificação desses casos no ano passado, segundo a pesquisadora. "Esses casos que ocorriam na rua estavam, talvez, sendo identificados como homicídios dolosos contra mulher e não feminicídios. E agora eles passam a ser identificados como feminicídios. As polícias, cada vez mais, estão expandindo a compreensão de que o feminicídio é para além da violência doméstica, também engloba o menosprezo ou discriminação à condição de mulher", explica. Quebrando o ciclo de violência O feminicídio é a forma mais extrema da violência contra a mulher. A morte é a representação de um fracasso coletivo — do Estado e da sociedade — em garantir a segurança e a vida da vítima. Não há uma resposta simples para a interrupção desse ciclo, mas especialistas apontam caminhos como medidas protetivas, políticas públicas de apoio financeiro e psicossocial, maior presença feminina nas forças de segurança e ações educativas voltadas à igualdade de gênero e de combate ao machismo. "Ainda que a gente saiba que a maior parte das vítimas não tenha medida protetiva, esse é um fator que nos dá alguma esperança de que há o que pode ser feito. Ela é muito importante, pois notifica o Estado de que essa vítima precisa ser protegida. Agora, a gente precisa pensar mecanismos para garantir que essa vítima continue sendo vigiada pelo Estado de alguma forma", afirma Betina Barros. Fabiana Dal'Mas reforça que a medida protetiva sozinha não é suficiente e requer fiscalização do Estado por meio de patrulhas da Polícia Militar ou da Guarda Civil, monitoramento do agressor por tornozeleira eletrônica ou botões antipânico. "Você também precisa dar um suporte de política pública mais global e interdisciplinar para essa mulher. Então, um apoio financeiro para aluguel social, para crescimento profissional, de logística para os filhos, porque muitas vezes é um dos motivos que mantém as mulheres nas relações abusivas. Manter um sistema integrado de atendimento psicossocial de apoio para essa mulher para que ela possa se fortalecer e quebrar o ciclo de violência", diz a promotora. O que diz a SSP "O enfrentamento à violência contra a mulher é prioridade do Governo de São Paulo, que tem intensificado de forma contínua a rede de proteção e os mecanismos de prevenção. O Estado ampliou a rede, com 144 DDMs e 173 Salas DDM para atendimento remoto, além do reforço de mais de 650 policiais. Além do mais, estão previstas 69 novas salas DDM, parte de um pacote de medidas anunciadas no último dia 30 para ampliar as políticas públicas de combate à violência contra a mulher. O pacote também prevê ações que incluem a criação de um Plano de Metas Decenal de Enfrentamento à Violência contra a Mulher e a ampliação da rede de proteção, com atendimento itinerante, o Circuito Integrado de Proteção às Mulheres – SP Por Todas, acordo de cooperação com TJ para ampliar monitoramento eletrônico de agressores, entre outras medidas. Outras medidas de combate à violência contra a mulher: - Grandes operações policiais para prender agressores: apenas nos últimos 3 meses, foram presos mais de 2 mil homens em flagrante ou por cumprimento de mandados judiciais relacionados a crimes contra mulheres; - App SP Mulher Segura para conectar, 24 horas por dia, mulheres em risco com a polícia. São 51,2 mil usuárias e 12 mil acionamentos do botão do pânico, com envio imediato de policiais via georreferenciamento. O App também cruza os dados de localização da vítima e dos agressores tornozelados para emissão de alertas; - Cabine Lilás: presente em todas as regiões do estado em unidades do Copom, onde chamados via 190 feitos por mulheres vítimas de violência são atendidos por policiais femininas treinadas para prestar acolhimento especializado e orientar sobre medidas protetivas e outros serviços de proteção do estado. Desde março de 2023 já foram realizados mais de 25 mil atendimentos a vítimas de violência em todo o Estado e efetuadas 120 prisões em flagrante por descumprimento de medidas protetivas na Capital e Grande São Paulo. - Tornozelamento: o Estado de São Paulo é pioneiro no uso da tecnologia para salvar vidas e no uso do monitoramento eletrônico de agressores de mulheres. O uso de tornozeleiras nesses casos foi instituído em setembro de 2023 e, desde então, já foi utilizado em 1.257 agressores, dos quais 129 permaneceram presos por descumprimentos de medidas protetivas; - Inauguração de 20 Casas da Mulher Paulista e construção de outras 16 unidades, para acolhimento a vítimas; - Criação do auxílio-aluguel, que já apoia 4 mil mulheres vítimas de violência doméstica em 582 municípios; - Movimento SP por Todas: criado para dar visibilidade e facilitar o acesso das mulheres à rede de proteção e acolhimento; - Capacitação de mais de 135 mil profissionais de bares, restaurante e shows para ações de prevenção com o Protocolo Não se Cale."

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/04/14/feminicidios-fora-de-casa-batem-recorde-em-sp-e-ja-representam-mais-de-40percent-dos-casos.ghtml


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