Colégio de SP que abrigou perseguidos na ditadura relembra 50 anos do Movimento do Custo de Vida, liderado por mulheres da periferia

  • 20/06/2026
(Foto: Reprodução)
Assembleia do Povo reuniu cerca de 5 mil pessoas no Colégio Santa Maria em 1976. Reprodução Há exatamente 50 anos, o Colégio Santa Maria, um dos mais tradicionais da Zona Sul de São Paulo, foi palco da Assembleia do Povo, encontro que reuniu cerca de 5 mil integrantes do Movimento do Custo de Vida (MCV) em plena ditadura militar. Neste sábado (20), o local voltará a receber participantes históricos da mobilização, familiares e ativistas para um ato em memória da assembleia. A programação inclui uma roda de conversa com integrantes históricos do MCV, a instalação de uma placa comemorativa e a participação do Grupo de Teatro da Vila Remo. O evento acontecerá no mesmo espaço que sediou a reunião histórica de 1976: um amplo corredor que liga as salas de aula à capela da escola. Mais do que uma grande assembleia popular, o encontro marcou um dos momentos emblemáticos de um movimento que teve como protagonistas mulheres das periferias paulistanas, em sua maioria negras, que se organizaram para denunciar a alta do custo de vida e reivindicar melhores condições para os trabalhadores. A pedagoga Luciana Dias tinha apenas 8 anos quando a assembleia aconteceu. Ela contou ao g1 que enquanto milhares de pessoas discutiam os rumos da mobilização, ela corria e brincava pelos corredores do colégio, enquanto os pais organizavam o evento. Cinco décadas depois, Luciana estará de volta ao mesmo espaço para participar do ato que relembra um dos momentos mais importantes da trajetória de sua mãe, Ana Dias, uma das lideranças do movimento. Embora a resistência à ditadura militar seja frequentemente associada aos movimentos estudantil e sindical, o Movimento do Custo de Vida nasceu da organização de donas de casa ligadas às comunidades eclesiais de base da Igreja Católica. Para participantes da mobilização, o ato deste sábado não tem apenas caráter comemorativo. A iniciativa busca preservar a memória de uma experiência de organização popular que marcou a resistência ao regime militar e mobilizou milhares de moradores das periferias paulistanas. Segundo a irmã Michael Nolan, advogada, defensora dos direitos humanos e integrante da Congregação das Irmãs da Santa Cruz, relembrar a Assembleia do Povo é também uma forma de refletir sobre os desafios da democracia no presente. Ela estava entre as religiosas que participaram do encontro realizado no colégio há cinco décadas. "A importância de relembrar é de chamar a atenção para a falta desse elemento de comunidade hoje, que é o que nós precisamos para fortalecer a democracia. Porque estamos morando em um tempo de individualismo, de oposições, de polarização. E não onde o povo discute, chega a um consenso e trabalha junto", afirma. Corredor onde aconteceu a Assembleia do Povo há 50 anos. Letícia Dauer/g1 Para Luciana Dias, filha de Ana Dias e do operário Santo Dias da Silva (morto por agentes da ditadura militar durante uma manifestação sindical em 1979), preservar essas histórias também é uma forma de resistência. Segundo ela, a memória ajuda a disputar narrativas sobre o período e garante que experiências de organização popular não sejam apagadas ou esquecidas pelas novas gerações. A escolha do Colégio Santa Maria para sediar o ato também carrega um simbolismo especial. Além de abrir suas portas para as assembleias do Movimento do Custo de Vida, a instituição se tornou um importante ponto de apoio a perseguidos políticos durante a ditadura militar. Entre as décadas de 1970 e 1980, religiosas da Congregação das Irmãs da Santa Cruz, que fundaram o colégio, acolheram dezenas de pessoas perseguidas pelo regime, inclusive estrangeiros. Muitos ficaram hospedados nas casas das freiras localizadas no mesmo terreno do colégio, preservadas até hoje. Irmã Michael Nolan Letícia Dauer/g1 Mulheres da periferia contra a carestia O Movimento do Custo de Vida começou a ser articulado em meados da década de 1970 nos bairros de Jardim Ângela e M'Boi Mirim, no extremo Sul da capital paulista. Segundo Luciana Dias, a história da resistência à ditadura costuma destacar a atuação de sindicatos e partidos políticos. O Movimento do Custo de Vida, porém, nasceu da organização de mulheres que, muitas vezes, nunca haviam participado da vida política. "Eram donas de casa de uma coragem ímpar, porque eram donas de casa de dentro de casa mesmo, não trabalhavam fora e participavam das comunidades eclesiais de base", afirma. Foi justamente nesses grupos ligados à Igreja Católica que o movimento começou a tomar forma. Nos chamados Clubes de Mães, mulheres se reuniam semanalmente para atividades como crochê e tricô, mas também compartilhavam preocupações sobre os problemas enfrentados nos bairros onde viviam. Faltavam escolas, transporte público, iluminação, saneamento básico e serviços de saúde. Para entender quais eram as demandas mais urgentes da população, elas passaram a realizar pesquisas de porta em porta. O levantamento apontou que a alta do preço dos alimentos da cesta básica era uma das principais preocupações das famílias da periferia. A partir desse diagnóstico, foi elaborada uma carta das "mães da periferia" denunciando a carestia — que foi até lida no programa de rádio "A Voz do Brasil". O documento impulsionou uma campanha de coleta de assinaturas contra o alto custo de vida que mobilizou moradores em feiras livres, praças e igrejas. Folheto que era distribuído pelo Movimento do Custo de Vida. Letícia Dauer/g1 Luciana, inclusive, se lembra de acompanhar a mãe durante essas ações. Segundo ela, muitas pessoas que não sabiam escrever demonstravam apoio à iniciativa registrando apenas o número do documento de identidade. Com o crescimento da mobilização, o movimento passou a organizar grandes assembleias para discutir estratégias e coordenar a campanha. Segundo Luciana, o Colégio Santa Maria foi escolhido tanto pelo apoio de religiosas ligadas às comunidades eclesiais de base quanto pela estrutura capaz de receber milhares de pessoas. "O colégio tinha duas irmãs, a Ana Maria Batista e a irmã Ruth Evelyn, que eram mais progressistas e ligadas às comunidades eclesiais de base. Como tinha uma estrutura física boa e ficava em uma região mais reservada, era um espaço adequado para realizar uma grande assembleia", lembra. Além disso, a localização facilitava o deslocamento de moradores das periferias da Zona Sul que participavam da mobilização. A Assembleia do Povo conseguiu reunir cerca de 5 mil pessoas e ajudou a impulsionar a campanha que se espalhou por diferentes regiões da cidade. O auge do movimento ocorreu em 1978, quando o abaixo-assinado contra a carestia alcançou 1,3 milhão de assinaturas. No mesmo ano, mais de 20 mil pessoas participaram de uma manifestação na Praça da Sé para protestar contra o alto custo de vida. Segundo registros da época, a concentração começou de forma pacífica, com cantos e palavras de ordem, mas terminou com repressão de agentes do regime militar, com uso de bombas de gás lacrimogêneo, prisões e dezenas de feridos. Cinquenta anos depois, o corredor onde Luciana brincava enquanto os pais organizavam a Assembleia do Povo voltará a receber antigos participantes da mobilização. Desta vez, não para planejar uma campanha contra a carestia, mas para preservar a memória de uma das mais importantes experiências de organização popular durante a ditadura militar.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/06/20/colegio-de-sp-que-abrigou-perseguidos-na-ditadura-relembra-50-anos-do-movimento-do-custo-de-vida-liderado-por-mulheres-da-periferia.ghtml


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