79 dias após morte de corredor em SP, prefeitura lança protocolo com atendimento em 3 minutos, uso de adrenalina e reforço contra calor
16/10/2026
(Foto: Reprodução) Imagem feita durante a corrida de São Silvestre
Celso Luix/Código 19/Estadão Conteúdo
A Prefeitura de São Paulo lançou o Protocolo Municipal de Assistência à Saúde em Corridas de Rua, que estabelece critérios para o atendimento médico de participantes de provas realizadas na capital. O documento prevê intervalos máximos para o primeiro atendimento, distribuição de desfibriladores ao longo dos percursos, quantidade mínima de profissionais e ambulâncias conforme o risco dos eventos.
O protocolo foi publicado no Diário Oficial do Município na terça-feira (13), 79 dias após a morte do publicitário e atleta amador Júlio Barreto, de 50 anos, que sofreu uma parada cardíaca logo depois de cruzar a linha de chegada dos 21 km da SP City Marathon, na Zona Sul de São Paulo, em 26 de julho.
O documento entra em vigor em 12 de dezembro.
O médico Miguel Carvalho Santacreu, que também participava da prova, criticou a demora no atendimento em um vídeo publicado nas redes sociais. Ele afirmou que os primeiros socorros foram prestados por médicos que corriam a prova e uma ambulância da organização chegou após cerca de dez minutos, sem desfibrilador externo automático (DEA). Segundo o relato, o equipamento chegou ao local posteriormente, cerca de 15 minutos após o início do atendimento.
O novo protocolo procura padronizar o planejamento e a execução da assistência médica nas corridas, levando em consideração não apenas o número de inscritos e a distância percorrida, mas também as condições climáticas, a dificuldade de acesso das ambulâncias, o perfil dos participantes e o histórico de ocorrências em edições anteriores.
⚠️ Como funciona a classificação de risco
Uma das principais mudanças previstas no documento é a criação de uma classificação municipal de risco, que deverá ser aplicada a todas as corridas de rua. A avaliação define a estrutura mínima de atendimento exigida para cada evento e considera oito fatores.
O sistema estabelece quatro níveis: baixo risco, médio risco, alto risco e risco especial. A classificação é feita a partir da soma dos pontos atribuídos a cada fator, e pode ser revista quando surgirem circunstâncias que alterem significativamente o risco. O número de participantes, por exemplo, recebe pontuação maior à medida que o evento cresce.
Provas com mais de 10 mil corredores recebem 6 pontos nesse critério;
Já a meia-maratona (21 km) recebe 8 pontos, a maior pontuação entre as modalidades listadas;
Temperaturas acima de 34°C recebem sete pontos;
A presença de pontes ou túneis acrescenta dois pontos à avaliação da complexidade;
A existência de poucos acessos para ambulâncias também aumenta a pontuação;
Eventos com registro de mortes em edições anteriores recebem seis pontos.
A pontuação final determina o nível de risco. Eventos com até 18 pontos são classificados como de baixo risco; de 19 a 28, médio risco; de 29 a 38, alto risco; e acima de 38, risco especial.
Algumas situações elevam automaticamente a classificação para o nível especial, independentemente da pontuação. É o caso de ultramaratonas, maratonas com mais de 15 mil participantes e provas com previsão de temperatura igual ou superior a 36°C. Eventos em locais sem acesso terrestre adequado para ambulâncias e aqueles com expectativa de público superior a 50 mil pessoas também entram nessa categoria.
⏱️ Atendimento em até 3 minutos
O protocolo estabelece intervalos máximos para o primeiro atendimento ao atleta, de acordo com o nível de risco da competição:
Em eventos de baixo risco, o limite é de 8 minutos;
Nas provas de médio risco, 6 minutos;
Nas de alto risco, 5 minutos;
Eventos classificados como de risco especial, 3 minutos.
🔎 O documento define atendimento inicial como o primeiro contato de um profissional habilitado com capacidade de iniciar o suporte básico de vida.
A proposta também determina que nenhum trecho do percurso fique sem cobertura assistencial, e a distância máxima entre os recursos médicos deverá ser de 2 km nos eventos de baixo risco, 1,5 km nos de médio risco, 1 km nos de alto risco e 800 metros nos de risco especial.
🏥 Desfibriladores e postos médicos
Outro ponto central do documento é a exigência de uma estrutura de atendimento distribuída pela prova, em vez de concentrada apenas na largada ou na chegada, apesar de que todas as corridas deverão ter um posto médico principal na área de chegada.
Para provas de 10 km ou mais, o protocolo também determina um posto médico e uma equipe móvel equipada com desfibrilador externo automático no último quarto do percurso.
Os postos médicos deverão ter estrutura para estabilização e observação de pacientes, além de equipamentos como oxigênio, desfibrilador, monitor multiparamétrico, aspirador, medicamentos de urgência como adrenalina e materiais para imobilização e acesso venoso.
Quantidade mínima de profissionais
A equipe médica também deverá ser dimensionada de acordo com a classificação da prova.
Nos eventos de baixo risco, a estrutura mínima prevista inclui dois médicos, dois enfermeiros, quatro técnicos em enfermagem, seis socorristas e duas equipes móveis;
Nos eventos de risco especial, os quantitativos aumentam para oito médicos, dez enfermeiros, 20 técnicos em enfermagem, 30 socorristas e oito equipes móveis.
O documento prevê acréscimos conforme o número de participantes: a cada 2 mil atletas adicionais, por exemplo, deverão ser acrescentados um médico, dois técnicos em enfermagem e três socorristas. A cada 2,5 mil participantes adicionais, deverá ser incluída uma ambulância do tipo B.
☀️ Regras para calor extremo e hidratação
O protocolo dedica um anexo específico aos riscos relacionados ao calor, que podem provocar desidratação, exaustão e golpe de calor durante provas de longa distância. Os organizadores deverão monitorar temperatura, umidade relativa do ar, índice de calor, radiação solar, velocidade do vento e previsão meteorológica. As informações deverão ser atualizadas 72 horas, 48 horas, 24 horas e 12 horas antes da prova, duas horas antes e imediatamente antes da largada.
O documento estabelece ainda cinco níveis operacionais para as condições de temperatura:
Até 25°C, o nível é verde, com operação normal e hidratação padrão;
Entre 25,1°C e 30°C, o nível amarelo prevê reforço da hidratação, comunicação aos atletas e vigilância ampliada;
Entre 30,1°C e 34°C, o nível laranja exige aumento de 30% da equipe médica, ampliação dos pontos de hidratação, áreas de resfriamento e reforço das equipes móveis;
Acima de 34°C, o nível vermelho determina revisão imediata do Plano de Atenção Médica, ampliação da estrutura e avaliação da necessidade de atrasar a largada;
Quando a temperatura ultrapassar 37°C, ou houver combinação de fatores ambientais que represente risco extremo, o nível passa a ser preto;
Nesse último caso, a Comissão Técnica deverá avaliar a suspensão, o adiamento ou o cancelamento da prova.
Fiscalização e punições
A Secretaria Municipal da Saúde será responsável pela governança do protocolo, por meio de uma Comissão Técnica Permanente. O grupo deverá analisar os Planos de Atenção Médica, avaliar se a estrutura proposta é suficiente e acompanhar os indicadores assistenciais das competições.
A fiscalização sanitária poderá ocorrer durante a análise dos documentos, na montagem da estrutura, imediatamente antes da largada, durante a prova e após o encerramento.
Entre os itens que poderão ser verificados estão a quantidade e a habilitação dos profissionais, a presença e o funcionamento dos equipamentos obrigatórios, a disponibilidade de desfibriladores, o posicionamento das ambulâncias, as rotas de evacuação, a comunicação entre as equipes e o cumprimento dos tempos de resposta.
O protocolo também cria a categoria de “eventos sentinela”, que inclui mortes durante as provas, paradas cardiorrespiratórias, utilização de desfibriladores, ocorrências com múltiplas vítimas, falhas operacionais, indisponibilidade de ambulâncias ou postos médicos, falhas de comunicação e atrasos superiores aos tempos máximos previstos.
Todos esses episódios deverão passar por análise técnica específica. A Secretaria Municipal da Saúde poderá realizar auditorias quando houver eventos sentinela, denúncias, determinação administrativa ou interesse sanitário.
Após cada corrida, o responsável técnico terá até dez dias úteis para encaminhar um relatório consolidado à secretaria, com dados sobre o número de participantes, os atendimentos, as remoções, os tempos de resposta, a utilização de desfibriladores, as ocorrências críticas e os óbitos, quando houver.
Em caso de descumprimento das regras, poderão ser determinadas adequações imediatas da estrutura. Quando houver risco iminente à saúde pública, o protocolo prevê a possibilidade de suspensão da autorização sanitária do evento, além de outras medidas administrativas e sanitárias previstas na legislação.
Maratonista amador de 50 anos morre durante prova de rua em SP